Pressão social nossa de cada dia

Você já parou para pensar em quem você seria hoje se não tivesse cedido a vida toda à tanta pressão social?

Desde sempre, cada dia mais, vivemos vidas regradas, cheias de dicas e pressão por padrões a seguir ditados por qualquer pessoa, exceto por nós mesmos. Até onde isso vai na formação de um ser humano? O quão tóxico e prejudicial isso pode ser e até onde nos impede de sermos legítimos, de sermos nós?

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Foto e edição por Balázs István / Divulgação

Começa na escola: ir bem nas provas, estar em todas as aulas, laboratórios, participar e ganhar todas as gincanas, olimpíadas, competições e afins. Então vem a pressão de ser descolado: fumar, beber, cometer alguns pequenos furtos, ir contra o sistema, usar alguma droga, estar em todos os eventos: muito bem vestido e feliz. Sempre feliz. Depois vem a cobrança de não se ser mais essa pessoa: largado, vagabundo, desajustado. Afinal, você se tornou um adulto fazendo todas essas coisas. As pessoas esperam que você passe de primeira em um bom vestibular, em um bom curso (que esteja em alta) e em uma boa universidade (que também esteja em alta). Também é cobrado, no mínimo, o melhor desempenho: que você esteja matriculado e vá às aulas assiduamente de todas as cadeiras importantes (ou que todos estão dizendo que são), cumpra a quantidade absurda cobrada de carga horária, atividades complementares, abra mão da vida social, amorosa, do seu sono, da sua sanidade, até que você não consiga pensar em ir à universidade sem linkar isso ao calvário que se tornou.

Finalmente acaba o ensino superior. Então vem a pós, o mestrado e por aí vai. Tecnicamente, essa é  a parte que você colheria os frutos. Mas os frutos têm de cumprir alguns requisitos: falar alguns idiomas, ter espírito de equipe, ser proativo (leia-se: fazer o seu trabalho, do seu superior e servir café, se precisar), um intercâmbio ou 5 anos de experiência é um diferencial também. É mais ou menos aqui que começa o processo de vegetar para a maioria que entrega os pontos e decide só seguir a maré. Passando o resto da vida em um emprego que você acha que escolheu, mas na verdade ele te escolheu, te moldou e vai te descartar assim que você não estiver mais dentro do perfil da empresa. Passando os olhos rapidamente sobre essa fantástica história de vida, não parece um tanto medíocre para uma pessoa que fez tudo certinho para não ter uma vida medíocre?

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Foto e edição por Balázs István / Divulgação

Eu tentei enxergar o fio da meada, o erro primário dessa sucessão de erros e primeira pecinha desse efeito dominó, sem sucesso. Quando achava que tinha chegado ao ponto inicial, sempre me deparava com algo anterior, e anterior, e anterior… Na falta do academicismo necessário e no receio de pecar em alguma colocação infundada, cheguei à conclusão de que está em tudo. Em tudo, porque se enraizou. Está em cada situação diária que passa despercebida, cada pequena e inocente tradição, cada pessoa com medo de pensar fora da caixa e fazer o que quer fazer de verdade. Nesse contexto, enxergo uma projeção bem negativa: o dia em que todos conseguirão se adequar, lidar com a pressão e se transformar aos poucos em um exército de robôs. E eu me pergunto: Isso seria bom para quem?

Pois bem, exposto o problema, nos proponhamos a pensar numa solução. Para começar, acho válido ressaltar onde, no meu ponto de vista, está a base da questão, onde a mudança precisa começar para que todo o resto comece a mudar junto, que é essa necessidade carente de adequação social. Essa sede de aceitação que nós temos e que acaba interferindo tão profundamente nas decisões que tomamos ao longo da vida. E nós perdemos tanto de nós, da nossa identidade, tentando sermos aceitos.

Foto por Marta Bavacqua
Foto por Marta Bavacqua / Divulgação

A nossa busca por mudança está intrinsecamente ligada à libertar-se dessas amarras. Ir na caixinha dos lápis de cor, pegar a cor que você quer e não se limitar a usar apenas as cores que lhe oferecerem, sem medo de ser julgado por pintar com as suas próprias cores. Uma grande frustração nesse processo é enxergar que uma maioria de pessoas acha tudo isso muito normal, adequado. Talvez seja um dos maiores fatores contribuintes para a estagnação. É como um mecanismo que opera para essa pressão toda nunca cessar, ir sempre além, como acontece. O ideal de hoje cresceu e pede cada vez mais de você amanhã, depois de amanhã é quase insuportável. Se você sucumbir, já sabe: você que é fraco.

Vamos fazer algo real com isso?

A pergunta, bem como a resposta, soa óbvia demais: O que fazer pra dar um start nessa mudança? Comecemos com algo real, substancial, que transcenda o fluxo de pensamentos que só ficam no campo das ideias. Faça algo por si mesmo. Faça o que você quiser fazer sem se importar tanto com o que qualquer pessoa possa vir a achar, sem pensar em ninguém antes de si mesmo. Cada um tem sua verdade, um jeito diferente de perceber e sentir as coisas ao redor, os detalhes da vida. Cada um lida com a vida de forma única e a sua forma pode não servir para terceiros, bem como a verdade de terceiros pode não funcionar para você. Ache a sua própria verdade, sua forma de lidar com a vida, passe a observar o que te faz realmente feliz, que te dá prazer, e nisso se agarre, porque isso vai ser a chama que vai incendiar toda a mediocridade ao seu redor. Quando você conseguir estar bem consigo mesmo, sem se sentir em dívida por nada que deixou de fazer, o mundo à sua volta começará a mudar instantaneamente e a partir daí você poderá emanar essa energia, fazer mais gente enxergar isso, mesmo que por atos. E, quando sentir a pressão voltando e o que te dá prazer te sufocando pela rotina, lembre-se: “A leviandade é um salva-vidas na correnteza da vida”, já dizia Ludwig Borne. Se permita. Fuja, desapareça, tome um porre, ligue pra quem você quer ligar, grite, durma na calçada do bar, medite, ore, vá á praia, o que for, portanto que te faça bem. Ser diferente (fazer diferente) é não abrir mão da sua verdade, da sua singularidade e ir contra a corrente, contra pactos implícitos e pré-estabelecidos, é exatamente não ficar de braços cruzados enquanto sua vida segue e você sequer teve oportunidade de vivê-la.

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Foto por Marta Bavacqua / Divulgação

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