Pessoas expoem como é a vida com Transtorno Bipolar

Bipolar

O Transtorno Bipolar retratado em imagens por uma fotógrafa e legendadas pelos próprios modelos

O Transtorno Bipolar é uma condição marcada por grandes alterações de humor. O indivíduo alterna entre momentos de profunda euforia e de profunda depressão. Ela acomete entre 3% e 6% da população mundial.

Todos temos mudanças ocasionais de humor, mas no Transtorno Bipolar (TB) essas mudanças causam um considerável sofrimento e dano social. Os estados de euforia são divididos em dois, chamados de Mania e Hipomania, que alternam com o estado de depressão. O episódio de Mania é descrito como:

“Um período humor insistentemente elevado, expansível ou irritável. Autoestima elevada ou grandiosidade, pouco sono, fala excessiva, sensação de pensamento acelerado, aumento total da quantidade e da velocidade de execução de atividades, envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas. Deve haver pelo menos três ou quatro desses sintomas anteriores e durar pelo menos uma semana. Pode haver necessidade de hospitalização e sintomas de alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem fisicamente, como a voz de Deus) e delírios (acreditar em algo francamente impossível, como ser Napoleão), também chamados de sintomas psicóticos.”

A diferença básica da Mania para a Hipomania é a gravidade e intensidade. A Hipomania é essa elevação do humor de modo mais brando. Se a pessoa tem sintomas psicóticos junto com esse humor, por definição é Mania.

Já o episódio de Humor Deprimido pode ser definido como:

“Um estado em quem a pessoa sente-se triste a maior parte do dia, quase todos os dias, seja ela mesmo dizendo ou outros observando. Reduzido interesse em todas as atividades. Perda ou ganho de peso. Insônia ou hipersonia. Agitação ou retardo físico. Sentimentos excessivos de culpa. Baixa capacidade de concentração. Pensamentos recorrentes de morte.”

De modo resumido, no Transtorno Bipolar I, há alternância entre Mania e Depressão. No Transtorno Bipolar II, há alternância entre Hipomania e Depressão.

Por que iniciar falando sobre tudo isso? Porque a primeira ferramenta que se tem para ajudar é o conhecimento. Quanto antes entende-se que há um problema, mais rápido devemos buscar ajuda. O dia 30 de março é o Dia Mundial do Transtorno Bipolar. Em março o mundo se movimenta para divulgar a todos os cantos sobre o que é o TB, seus sintomas e tratamentos. Profissionais Psicólogos e Psiquiatras, junto de outras áreas da saúde, detém importantes métodos para auxiliar no cuidado e na qualidade de vida das pessoas com essas e outras condições de sofrimento.

A fotógrafa Liz Obert, inspirada pelas suas dificuldade e conflitos de alguém com Transtorno Bipolar tipo II, fez um ensaio chamado “Dualities” (Dualidades), em que fotografou pessoas com TB em dois momentos, em um momento que eles se sentissem mais à vontade (felizes, tocando guitarra, cozinhando), incluindo estados de Mania e Hipomania, e em um outro momento em que estivessem depressivos (deitados na cama, sozinhos em casa). As fotos incluem legendas, em que eles escrevem suas sensações e sentimentos no momento.

Bipolar
Brian

Brian

Esquerda: “Eu ouço música: Ryan Adams, Neil Young, Wilco, Radiohead, The National, Jeff Buckley, Pavement, Echo e The Bunnymen – algo parecido com isso. Eu gosto do momento de absorção que a música produz. Surpreendido pelo ritmo e a melodia, meu humor pode ser alterado ou reforçado. Todas a emoções estão em jogo – da inconstância ao desespero e todos pontos entre isso.”

Direita: “Eu me sinto estúpido ao levantar. Minhas inibições estão reduzidas. Estou enérgico e esperto. Ainda ouço música, mas minha playlist muda. Me sinto mais apto a ouvir Soul ou Hip Hop – Al Green, John Legend ou the Roots ou Stevie Wonder. Ao acordar, escuto Beastie Boys, The Clash, Nirvana, Pixies.”

Bipolar
Cindy

Cindy

Esquerda: “Tudo parece ser demais, como se nunca fosse dar certo. Quando estou assim, meditação ajuda, caminhar ajuda. Assim como lavar pratos.”

Direita: “Há possibilidades novamente. Algumas vezes liberdade. A vida é tão bonita. Sinto como se eu pudesse explodir e eu amo a todos. Tudo é manejável.”

Bipolar
Colton

Colton

Esquerda: “Submerja em si, domine a si. Prove a si. Controle-se.”

Direita: “E ai! Eu sou Colton. E você é?”

Bipolar
Jason

Jason

Esquerda: “Solidão, jogar vídeo game, abraçar gatinhos, rir desesperadamente de comédia sarcástica, satisfação com comida do dia, introspeção, evitar meu trabalho artístico, mais solidão”

Direita: “Ver amigos, vídeo games com amigos online, música enquanto preparo boa comida, boa cerveja, fazer trabalho artístico de que me orgulho, aproveitar a companhia de meus felinos desempregados e companheiros de quarto”

Bipolar
John Paul

John Paul

Esquerda: “Estagnado, odiando-se e se sentindo sozinho, morto vivo, eu falhei, ficando velho, criatividade indo embora, impossível de ser amado, o mundo enlouqueceu!!!!!”

Direita: “Sentindo-me criativo e sólido, um amor pela vida que vem no momento com uma base firme, e nutrindo gratidão por tudo. Eu tenho vivido – ambas as coisas ruins e boas”.

Bipolar
Jonathan

Johnathan

Esquerda: “As aparentes realizações da vida empalidecem diante da luz da incerteza. Música ajuda: This Mortal Coil, Sparklehorse, Donny Hathaway, Miles’Kind of Blue, Stones’ Let it Bleed. ‘. Apenas a vida pode demorar tanto para consertar os começos errados, talvez nunca o faça.

Direita: “Não sou a vida da festa, mas faço parte dela. Confiante, vivo, rápido, imperturbável. Praticamente tudo parece possível, mesmo que provavelmente nunca se tente fazer. Música ajuda: Stevie, Roberta Flack, Sparklehorse, Iggy, Roxy Music.”

Bipolar
Katherine

Katherine

Esquerda: “Sentir-se pesada [ansiosa], pensar sobre como tudo é bagunçado, analisar demais. Criando cenários falsos, não sinto como se estivesse cumprindo expectativas, isolada, ficar em casa, rastejar na cama sentar na minha varanda, fumar cigarros e esquivar de situações sociais.”

Direita: “Limpar meu quarto, meu carro, organizar minha oficina, chuveiro consertado, sinto-me para cima, tagarela, estúpida, audaciosa e tola, me engajo nos eventos da comunidade, canto, crio músicas, crio artesanato.”

Bipolar
Kimberlee

Kimberlee

Esquerda: “Eu durmo o dia todo ou me perco na internet e para não me perder na escuridão da minha mente. Meu mundo se encolhe. Outros tem que cuidar de mim porque eu me sinto como se eu não fosse capaz de fazer nada. Me sinto culpada por isso. Eu apenas queria não mais sentir essa dor sombria nunca mais.”

Direita: “Eu gosto de fazer parte do mundo. Eu gosto de cozinhar, teatro, jardinagem, leitura, dividir meu tempo com amigos e família, viajar. Eu sou alegre, contente e pacífica.

Bipolar
Liz Obert

Liz Obert

Esquerda: “Meu cachorro Niko, vinho tinto e pizza, filmes sci-fi, romances, trabalhando na oficina e ouvindo audiolivros, soneca, ficando em casa, amigos próximos, tentando não pensar. DORMINDO MUITO…”

Direita: “Socializar, happy hour, acampar, escalar, sentindo me linda, otimista, tudo vai ficar bem”

Bipolar
Megan

Megan

Esquerda: “Amarrada no modo eremita e esperando a tempestade passar. Temperamental e próxima de uma explosão de raiva, baixa energia e atenção; autodestrutiva e hipercrítica, culpada por coisas fora do meu controle, pensamento criativo e o trabalho se aperfeiçoa dramaticamente, felicidade é rapidamente vivenciada, super dramática e pareço falsa.”

Direita: “Ambiciosa e guiada para prosperar; saudável e atrevida; motivada para impulsionar meus sonhos para frente e para ajudar aqueles a minha volta. Advogar e verbalizar por minhas paixões e meus interesses. Amável e compreensiva; mais tolerante com a raiva, ativa e ávida por explorar a mim e o mundo ao meu redor.”

Bipolar
Nora

Nora

Esquerda: “Eu estou envergonhada, eu estou assustada. Eu sou todas as minhas falhas combinadas em um momento: agora. Eu estou preenchida com raiva, ódio. Eu sou desespero.”

Direita: “Eu estou inspirada, eu estou inspirando, eu estou com amigos, assistindo Kung Fu, ouvindo música, dançando, escalando montanhas, divertindo-me, sorrindo, muitos sorrisos.”

Bipolar
Sharon

Sharon

Esquerda: “Sentindo-me como se tudo estivesse se quebrando ao meu redor e eu fosse impotente para impedir isso. Presa em uma dor profunda e em uma raiva antiga que precisa ser mantida escondida, sem poder para resolver, sem forças para avançar. Amaldiçoada a determinado fracasso.”

Direita: “Sempre que há uma tela em branco e tinta, o mundo é recriado. Ele espera por minha imaginação, assim como o futuro. Muitas bênçãos me foram dadas, e eu quero dividi-las.”

Bipolar
Skarrlett

Skarrlett

Esquerda: “Desleixada, olhos mortos e colados em uma tela. Ouvindo música ao invés de criá-la, escondendo meu rosto descuidado devido minha disforia de gênero, desassociada dos meus arredores.”

Direita: “Geralmente limpa, focada, praticando instrumentos e criando novas ideias para músicas. Enfeitada com maquiagem e cabelo arrumado. Sincero e assertivo sobre praticamente tudo, fazendo imitações vocais por diversão.”

Bipolar
Steph

Steph

Esquerda: “Eu sou pequena e necessitada, como diz a música da Sia, cercada por uma névoa de fracasso, me afogando nas expectativas que não cumpri, uma sombra de mim mesma”

Direita: “Minha vitalidade e amor pela vida são inegáveis, sou a personificação da força, beleza em movimento. Eu falo em meu nome e daqueles com uma voz clara e audível”

As descrições e as imagens desse ensaio nos eliciam os mais fortes sentimentos em relação a essa condição. O momento de dor de quem está deprimido parece ser algo dilacerante, cegante, e traz certa sensação de impotência pra quem lê e vê. E essa é uma sensação humana natural em resposta a dor expressa verbalmente e não verbalmente em “Dualities”.

No outro lado vemos o extremo oposto. A vontade, a esperança, a expectativa, a produtividade, a interação e o amor antes não aparente. Sinal de que nada é para sempre, por mais forte que a dor seja. Conviver com esse tipo de complexa condição, seja ela sua ou de outrem, sempre exige uma dose cavalar de dedicação. Paciência e compaixão consigo, entendendo que toda tempestade passa. Paciência e compaixão com o outro, entendendo que nada daquilo é pessoal.

Me percebo repetitivo ao dizer que as dificuldades do Transtorno Mental devem ser superadas com o amor. Tal qual uma condição de hipertensão arterial, deve ser sistematicamente acompanhada, se for necessário deve ser medicado, e que exige de todos uma dieta. Na Hipertensão é uma Dieta Hipossódica, no Transtorno Mental é uma “Dieta Hiperamorosa”. Exige mudanças, adaptações e principalmente conhecimento. É necessário saber o que se está tratando para usar as ferramentas certas.

O tratamento adequado conduz a muitos avanços e melhoras. Temos diversos exemplos na mídia de famosos com Transtorno Bipolar, como o ator Ben Stiller, Jim Carrey, Atriz Catherine Zeta-Jones, o Bilionário fundador da CNN Ted Turner, e um dos mais famosos Bipolares da história, o Pintor e gênio Vincent Van Gogh. Isso nos mostra que essa realidade é mais presente do que imaginamos, e que há pessoas bem-sucedidas mesmo com tais condições.

Fonte: Refinery, Liz Obert

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