O que nós temos contra a tristeza?

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Porque tratamos a tristeza como um problema? Porque a evitamos?

Fomos condicionados a vida inteira a tratar a tristeza como um sentimento culposo, mas seria esse o melhor caminho para lidar com ela?

“É melhor ser alegre que ser triste”

Entoava Vinícius de Moraes, décadas atrás em um dos sambas mais bonitos da história que já passou pela boca de muita gente ao menos uma vez na vida. Mas o que será que está por trás desse pensamento tão comumente sentido e compartilhado por tantas gerações? Por que nós temos tamanha aversão à tristeza? Por que nossa reação instintiva é repelir e não vivenciar esse sentimento?

Cada um de nós já se sentiu triste em algum momento e essa condição não é inerente à uma determinada condição sócio-financeira, um credo ou filosofia de vida, todos estamos sujeitos a nos sentirmos assim.

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A tristeza é indispensável ao ser humano em suas interações com o mundo, em suas movimentações. Está profundamente envolvida com seu crescimento, sua evolução. Estudiosos inclusive, afirmam que o sentimento de tristeza fomentou laços sociais e quebrou barreiras entre nossos antepassados. Se estar triste é algo tão inevitavelmente humano e comum, por que não lidamos com isso exatamente assim? Por que nós nos negamos a sentirmo-nos tristes e repelimos essa sensação como se fosse algo terrível e inaceitável?

Todos os dias os comerciais nos mostram pessoas sorrindo, felizes, radiantes. No trabalho também, todos temos de estar sorrindo, ser educados, bem-dispostos e realizados mesmo que aquele trabalho não nos satisfaça, a rotina seja esmagadora e o salário não pague as contas. Na roda de amigos, no barzinho, também é proibido mencionar assuntos que se faça pensar em algo triste ou insatisfatório, “Vamos falar de coisa boa” diz o amigo. Nós estamos rodeados de manuais mudos, mas implícitos, que nos ensinam que a felicidade é o único estado de espírito pleno e nobre. Estar triste é um problema, um problemão, e, quando não rapidamente solvido, tem de ser ignorado ou superficialmente suprido por algum prazer fácil e instantâneo. E, por vezes, na busca por essa felicidade rasa, instantânea, acabamos passando por cima de um dos sentimentos mais legítimos que a existência humana tem acesso.

A tristeza faz parte da construção do ser humano.

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Nós estamos vivendo na era da “ditadura da felicidade”, onde a felicidade é sempre necessária e a tristeza confundida com uma patologia que precisa ser erradicada, curada. Ser feliz 24 horas é a realidade que muitos tentam passar, mas ninguém vive de fato porque ninguém é feliz 24 horas. E isso não é um problema. Uma pessoa não se torna amarga ou infeliz por não sorrir o dia inteiro. Esse indivíduo plenamente feliz, perfeito e forte que as propagandas e redes sociais mostram e que a sociedade cobra em seus manuais de felicidade não existe e se convencer do contrário só vai fazer de você uma pessoa imensamente frustrada com sua vida.

Assim mesmo, todos os dias cobramos de nós mesmos, na frente do espelho, repetindo alguma frase pobre de um livro de autoajuda, essa felicidade pura e inesgotável que nunca vai ser real. Porque todos temos altos e baixos em nosso humor, nosso dia, nossa vida. Tentar negar isso é, no mínimo, estar em falta consigo mesmo. O que não quer dizer que devamos sucumbir a esses sentimentos ou tornarmo-nos reféns deles, mas lidar com eles, observar como nos saímos nesse processo e mudar o que for preciso ao invés de privar sensações e experiências amadurecedoras à pessoa que mais importa nesse mundo: você!

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A felicidade está intrinsecamente ligada à tristeza.

Essa semana estava ajudando minha prima de 12 anos com a tarefa de casa de português e perguntei para ela o que era felicidade. Ela, após pensar um pouco, disse que era o antônimo de tristeza. Eu ri na hora, mas depois fiquei pensando na verdade que essa brincadeira trouxe consigo. Nós saberíamos distinguir o que é a felicidade se não houvesse a tristeza? E a sensação de alegria seria tão intensa se não houvesse momentos em que estivemos tristes? O quanto todas as definições de tristeza que reunimos ao longo da vida agregaram para dar sentido ao que chamamos de felicidade? Percebe como as duas coisas estão ligadas em um nível primário, essencial?

Ouvi uma vez que a parte de um osso quebrado se tornava a parte mais forte daquele mesmo osso depois de sarada. O mesmo raciocínio pode facilmente ser aplicado aqui. Depois de períodos de tristeza, reavaliações pessoais e auto-conhecimento, nos tornamos indivíduos ainda mais fortes do que éramos antes. Então, vamos dar espaço para esse sentimento que pode ser tão engrandecedor! Abrir mão desse conceito de felicidade tão ilusório, ditatorial, que não dá espaço para outras sensações, outra realidade além da que está implícita pelo senso comum. Nos permitamos ser o que tivermos de ser, sentirmos exatamente o que estamos sentindo, sem medo. Vamos nos abrir à nós mesmos, aos nossos sentimentos como eles verdadeiramente são, vamos ser honestos e não fugir da tristeza.

Só assim se pode ser realmente feliz.

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Fonte: TED.

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