Cinco Graças: filme despretensioso, mas necessário

Filme aborda protagonismo feminino

Fui olhar no site Dicionário inFormal o significado do termo “despretensioso”. Sempre soube mais ou menos o significado da palavra. No entanto, eu precisava ter a certeza. Isso porque a expressão aparecia de vez em quando nos textos dos críticos de cinema.  O site define o termo como “Aquele que não tem pretensão; desprovido de objetivo específico. Desinteressado, tranquilo”. Longe de ser um crítico de cinema, deduzi que Cinco Graças (Mustang)  é um filme despretensioso.

Ambientado no norte da Turquia, em um vilarejo para lá de conservador, o filme conta a história de cinco garotas adolescentes, as cinco “Graças” do título em português. Orfãs e irmãs, todas elas vivem em um casarão com a avó, as tias  e os tios. Teoricamente, a história começa no último dia de aula antes das férias de verão quando, inocentemente, as meninas e seus colegas de escola resolvem se divertir por aí, na praia, nas árvores, rindo e curtindo a natureza, como qualquer jovem normal. Normal se não fosse um detalhe: moça jovem e bonita não pode sair por aí se corrompendo. Isso, claro, na lógica daquele povo do lugar onde se passa o filme.

Cinco Graças
Cinco Graças / Divulgação

Filmado em 2015, o longa metragem é o trabalho de estreia da cineasta turca Deniz Gamze Ergüven. Jovem (Deniz nasceu em 1978), ela saiu da Turquia ainda criança para viver na França.  De lá, talvez, ela conseguiu enxergar melhor o universo de onde ela veio: extremamente machista, absurdamente conservador e incrivelmente normal. E tudo foi colocado no filme. Aí entra a mágica do negócio. Cinco Graças não é um filme militante. Não fala de uma luta, de uma causa. Fala do dia a dia comum de cinco garotas comuns. Lindas, mas comuns.

Cinco Graças
Cinco Graças / Divulgação

Li uma crítica na Folha de São Paulo antes mesmo dele ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, representando a bandeira da França. Quem escreveu disse que o maior pecado do filme foi mostrar os conflitos das protagonistas de uma forma binária e maniqueísta. Discordo totalmente. A adolescência feminina, já bastante explorada no cinema e na televisão, ganha uma nova abordagem. E as questões ligadas ao protagonismo feminino emergem de uma forma natural, sem precisar de didatismos.

Apesar de ser uma obra excelente, esqueça toda aquela estética dos filmes sobre adolescentes made in Hollywood. Nada de edição frenética, nem de trilha sonora descolada. Tudo em Cinco Graças é absurdamente cru. A magia está na história, na atuação das meninas, na direção caprichada e na fotografia bem cuidadosa. Por isso que vejo aí um trabalho despretensioso. O resultado pode ter sido pretensioso, mas o caminho escolhido pela cineasta não o é. A questão de gênero, com a evidência do machismo nosso de cada dia, foi escancarado de uma forma sutil. Isso: escancarado, mas sutil.

Todas as dicotomias possíveis estão presentes nas vidas de Lale, Nur, Ece, Selma e Sonay: as lingeries sensuais e as vestimentas costuradas pela avó, a rebeldia da adolescência e a responsabilidade de um casamento, o primeiro amor e as uniões arranjadas pelas famílias, a ousadia e o medo, o provincianismo da vila e a modernidade de Istambul, cidade-liberdade. Aconteceu ali, do outro lado do mundo, em um vilarejo no norte da Turquia. Mas acontece aqui do lado, na sua vizinhança, em outras proporções.

Fonte: Internet Movie Data Base (IMDB), Cohen Media Group, Google Play, iTunes

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  • Aurélio Oliveira

    Irei assistir <3