A vida com ansiedade pelos olhos de seu portardor

ansiedade

John William registrou alguns de momentos íntimos, buscando passar as sensações de quem tem transtorno de ansiedade e TOC

O fotógrafo John William Keed é portador de um Transtorno de Ansiedade. Uma condição muito comum e que atinge cerca de 23% da população Brasileira em algum momento da vida. É normal sentir ansiedade, faz parte da vida e da condição humana. Mas a ansiedade em excesso pode trazer um grave prejuízo social e ocupacional.

Como forma de enfrentamento e de conscientização, John criou um ensaio fotográfico com o irônico título de “It’s Hardly Noticeable” (“Quase não dá pra notar”), em que expões suas angustias e compulsões. Pelo que se observa também podemos ver sintomas Obsessivos-compulsivos manifestados nas imagens, como compulsões por padrões e organização.

ansiedade
por John William / Divulgação
It's Hardly Noticeable VIAt times, anxiety can be a very isolating experience, Keedy says.
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
It's Hardly Noticeable XIIIKeedy's series depicts an anonymous character who suffers from anxiety.
por John William / Divulgação
It's Hardly Noticeable XVIKeedy flossed 300 times in order to make this image. "Thinking about it still makes my gums hurt," he says.
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação
ansiedade
por John William / Divulgação

Segue uma entrevista em que ele descreve seu processo de criação e sobre sua vida com a Ansiedade, obsessões e compulsões.

Quando o fotógrafo John William Keed foi diagnosticado com transtorno de ansiedade, disse ter tido dificuldades para enfrentar a doença. Era difícil de aceitar. Era difícil de explicar para os amigos e para a família. Sentiu-se totalmente sozinho. ‘Eu odeio dizer isso, mas eu me sentia envergonhado com tudo isso.’

Anos depois, Keedy, 29 anos, começou a fazer uma série de fotos sobre sua condição. As imagens são profundamente íntimas e impressionantes. Hoje ele afirma que deseja mostrar seu trabalho para todo mundo, ‘Desejo ajudar algumas pessoas que passam pela mesma coisa a não se sentirem sozinhas no mundo. ‘

Perguntamos a Keedy, que hoje vivem em Santo Antonio, sobre seu processo criativo e os desafios de um transtorno mental. O diálogo foi editado para melhor clareza.

De onde vem o título da série ‘It’s Hardly Noticeable’ [‘Quase não dá para notar’]?

Na verdade, o título veio de algo que escrevi em um dos meus diários. Na época eu estava tão convencido que estava fazendo um ótimo trabalho ao esconder minha ansiedade, quando na verdade não estava. É irônico, jocoso. As imagens por si só são teatrais e, acima de tudo, nada sutis. É como se fosse “Não se preocupe, quase não dá para notar”.

Suas fotos descrevem um personagem anônimo, tendo como modelo você. O quanto você se identifica com ele?

Eu adoraria dizer, ‘Oh, é um personagem totalmente criado. ’. Não mesmo. Mas é mais fácil para mim falar sobre nomeando-o como ‘personagem’, então eu continuo chamando-o assim. Eu sou meio que protetor dele, eu me preocupo de as pessoas terem uma ideia errada sobre ele. Minha preocupação é de olharem apenas as imagens sem compreenderem a ideia por completo. Olharem as ações isoladas e, assim, suas mentes criarem essa noção de que é apenas esse maluco assanhado. O que não condiz com a grande maioria das pessoas que sofrem com essa condição. Ele é apenas uma pessoa comum, um homem é como qualquer outro.

Quando você começou a fazer essas fotos?

Demorou entre sete e oito anos depois de ser diagnosticado com transtorno de ansiedade. Para ser sincero, começou como modo de me entregar as minhas ansiedades e compulsões, mas ainda é algo que me ajuda de um certo modo. Muitas das imagens registram essas ações repetidas, e eu realmente fiz tudo isso. Há a imagem do fio dental na pia. Nela, eu usei o fio dental umas 300 vezes. Só de lembrar minha gengiva dói. Mas para ser honesto, na maior parte das vezes eu não estava totalmente incomodado. Há algo de confortável na repetição. O projeto me permitiu ceder a esse tipo de pensamento por determinado período de tempo, e quanto eu terminava e foto, já estava bem o suficiente para voltar ao controle. O fio dental doeu muito ainda assim.

Em que momento você optou por expor suas fotos para as pessoas?

Mostrar as fotos para muita gente não era algo que desde sempre planejei. Estava preocupado sobre o que as pessoas iriam pensar de mim e da minha sanidade. Mas depois de mostrá-las para algumas pessoas que também tinham transtornos mentais, e ouvir elas dizerem que se identificavam, pensei que seria importante fazer um esforço para expor mais ainda. Há um estigma em ter um transtorno mental. Ele vem com essa ideia de fraqueza, de que há pouca força de vontade para ficar bem. Estranho é que quando alguém quebra um braço, você nunca diz que ele deve ter força de vontade para sair dessa. Como é algo que nem todo mundo fala sobre, é fácil de se sentir sozinho. Sentir que você é o único que tem esses pensamentos e que sente essas coisas.

Foi difícil explicar como é sentir ansiedade?

A ideia de doença mental, para quem nunca sentiu algo parecido, é de que se trata de algo puramente ‘psicológico’. Mas para mim, muito do que eu sinto é físico. Tentar colocar em palavras, descrever como é sentir isso, é difícil. A foto mais pessoal e que me deixa mais nervoso é aquela da campainha com uma tachinha na ponta. Quando minha ansiedade estava no máximo, eu tinha essa dificuldade de me relacionar com as pessoas. Eu realmente queria estar em contato com meus amigos e minha família, mas havia algo que fisicamente me impedia disso. Um amigo me ligava, e eu simplesmente encarava o telefone. Eu realmente queria responder, mas sentia que não conseguia. Havia algo me impedindo de fazer isso. Então a imagem da campainha realmente me traz esse sentimento. Você sabe que campainhas funcionam, as luzes de dentro sinalizam isso. Mas para usa-las, você tem de passar por essa dor física.

Suas fotos são notáveis, algumas delas também tem um elemento de humor. A foto do leite vazando do copo, por exemplo, é como se seu personagem estivesse querendo manter-se positivo, ver o copo meio cheio, mas simplesmente não funciona.

É também uma piscada e uma cotovelada para Sisyphus: Você está constantemente trabalhando para ter certeza de que o copo permaneça cheio. E a ideia de ‘chorar sobre o leite derramado. ’ Eu tive muita dificuldade quando me levava sério demais. Quando comecei a enfrentar isso, ficou pior. A melhor maneira que encontrei para lidar com isso era através do humor. Se eu fizesse piadas sobre, não era tão ruim assim. Transtorno mental é um assunto muito sério e intenso. É algo que as pessoas não gostam de se deparar e de discutir. Então eu uso do humor para tornar minhas fotos um pouco mais acessíveis.”

Fonte: NPR.org, John William Keedy

Leave your vote

1 point
Upvote Downvote

Total votes: 1

Upvotes: 1

Upvotes percentage: 100.000000%

Downvotes: 0

Downvotes percentage: 0.000000%